A poesia está em tudo

Sábado, 24 de Março de 2012

                                                    

Está parado ali

sob holofotes de néon

e a chuva tropical,

esperando que ela desça

com migalhas de comiseração

em um prato de plástico,

mas o elevador do prédio

é cúmplice do seu ódio

e não a traz ao solo.

Se descesse, veria que é real

esse embrulho com remorso e culpa 

que traz preso ao braço,

mas não descerá.

E ele ficará ali

a madrugada toda

como elemento da paisagem. 

 

 

                          Sérgio Bernardo

 

publicado por Sérgio Bernardo às 17:06

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

 

A tarde compra

um lote

de sol inverossímil,

 

uns dormem, uns acordam,

 

no extremo da praça a bica

doura uma mistura

de limo e água,

 

o funcionário de uniforme laranja

produz:

 

varre com fúria

as margens do asfalto,

rio de automóveis.

 

 

                   Sérgio Bernardo 

publicado por Sérgio Bernardo às 14:16

Sábado, 01 de Outubro de 2011

Aqui o litoral seduz o corpo,

a água esconde um mar de sêmen

e a espuma lambe os pés com língua de sal.

 

Soubesse antes do horizonte nu,

teria me inaugurado na linha do oceano,

jamais entre as paredes de uma casa.

 

Casas degolam liberdades.

Mas ao vento marítimo todos os rumos são possíveis:

as algas ensinam caminhos múltiplos

aos passos indecisos do pensamento.

 

Soubesse antes da solidão atlântica,

o mofo dos dias submergiria nela

e a inquietude urbana viria para um banho de sol,

deixando vazias as ruas e as pessoas.

Ruas têm sempre esquinas

e pessoas sempre se impõem limites:

ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.

 

Aqui, junto às ondas, se decifra o idioma dos náufragos.

Porque apenas vozes afundadas no desconhecido

narram com claridade a vida.

 

Lá atrás fica o fim do horizonte,

existe um cardume perdido com roupas sobre a pele.

Lá está a resposta que o sangue vomita.

Há mais casas que céu, mais poeira que gotas

e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.

 

Nesse lugar, o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.

 

 

                                                  Sérgio Bernardo     

publicado por Sérgio Bernardo às 06:25

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

Sem outra opção, amanheceu.

Deixou a água lamber seu rosto

como cão amoroso.

 

Ao dormir, havia o mistério:

acordaria? não acordaria?

Ninguém decifra a intenção do seguinte.

 

Aqueles jornais ancorados no ladrilho

trarão notícias de um lugar ignorado,

porque há muito migrou

para uma dimensão contrária.

Serão lidos como obra de ficção,

aqui e ali uma tentativa de poesia

primariamente rimada.

 

Olhará o gato como animal extinto,

mas encherá o pote de leite

conforme toda manhã.

 

Sairá à rua abraçado a volumes

(a pasta de couro, papéis, guarda-chuva)

uma rua que o desconstruirá a cada passo.

 

Terá pressa. Chegará atrasado. Voltará para casa.

Assim: coadjuvando o dia.

 

                           

                               Sérgio Bernardo           

publicado por Sérgio Bernardo às 16:11

Quarta-feira, 08 de Junho de 2011

 

Cercado pelos quadros

o pintor aderna,

incapaz de modificar litorais,

entre fósseis de vernissage e uísque nacional.

Mais fácil vender a alma

que uma de suas telas figurativas:

o diabo bem poderia

investir em arte como negócio.

 

Pensa: estou devendo ao veterinário

que há uma semana levou minha gata

e amanhã

também ao fornecedor da bebida.

 

                          Sérgio Bernardo

publicado por Sérgio Bernardo às 23:09

 

O jornal nas mãos se inutiliza como instrumento

mais pelo que guarda

do que pelo obsoletismo da forma.

 

É o que não diz que o torna imprestável,

mero papel com letras.

 

Não o substituem páginas

carregadas de linguagens contemporâneas

atravessando conexões com o agora.  

 

Mesmo diário, ele se inviabiliza

pelo que dorme em arquivos

na cumplicidade das editorias.

 

                            Sérgio Bernardo

publicado por Sérgio Bernardo às 22:54

Quarta-feira, 09 de Março de 2011

A carne dele é uma sílaba

no conto da cidade,

esconde-se na fenda

de qualquer viaduto.

 

Um tiro que o atinja

não será ouvido

dentro da música

do dia.

 

Infância

sem linhas

no livro do asfalto.

 

Personagem

rejeitado

ainda no esboço.

 

           

               Sérgio Bernardo

 

 

 

 

 

publicado por Sérgio Bernardo às 10:16

Quarta-feira, 02 de Março de 2011

Na minha mesa posta

um bule com o choro de ontem

servido amargo

 

Entre os jornais do dia

o roteiro em detalhes

do que podia ter sido

 

Em vez da geleia de morango

o suor das tarefas

num pote de cerâmica

 

A faca corta o pão

como se amputasse

a língua do ódio

 

No balcão da copa

o relógio do micro-ondas

cobra meu tempo

 

Todo dia às 7

desjejuo em silêncio

e a família ignora

a fome de dentro

 

             Sérgio Bernardo

publicado por Sérgio Bernardo às 13:40

Mar de fósseis em cada esquina,

a urbe agoniza

com cheiro de maresia no asfalto.

Nas praças navegam horizontes apagados,

sem mapeamento possível,

num hemisfério de sucata.

Jornais nunca lidos espalham palavras

na sombra desses homens,

de borco uns, uns de lado,

mastigando guimbas com lábios cheios de felicidade.

Perdidas memórias nos arquivos,

houvesse algum tempo para reavê-las,

seria minúsculo.

Mas não há:

o tempo fendeu-se como falha geológica

geradora de mortos.

Também não há identidade

nas reentrâncias das ruas,

entre havaianas,

copos descartáveis,

a sopa da noite,

todos sangram por poros iguais,

cruzam a mesma praia nua.

Quem dera houvesse ao menos conchas.

 

                                   Sérgio Bernardo

 

 

 

publicado por Sérgio Bernardo às 02:14

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