A poesia está em tudo

Sábado, 24 de Março de 2012

                                                    

Está parado ali

sob holofotes de néon

e a chuva tropical,

esperando que ela desça

com migalhas de comiseração

em um prato de plástico,

mas o elevador do prédio

é cúmplice do seu ódio

e não a traz ao solo.

Se descesse, veria que é real

esse embrulho com remorso e culpa 

que traz preso ao braço,

mas não descerá.

E ele ficará ali

a madrugada toda

como elemento da paisagem. 

 

 

                          Sérgio Bernardo

 

publicado por Sérgio Bernardo às 17:06

Sábado, 01 de Outubro de 2011

Aqui o litoral seduz o corpo,

a água esconde um mar de sêmen

e a espuma lambe os pés com língua de sal.

 

Soubesse antes do horizonte nu,

teria me inaugurado na linha do oceano,

jamais entre as paredes de uma casa.

 

Casas degolam liberdades.

Mas ao vento marítimo todos os rumos são possíveis:

as algas ensinam caminhos múltiplos

aos passos indecisos do pensamento.

 

Soubesse antes da solidão atlântica,

o mofo dos dias submergiria nela

e a inquietude urbana viria para um banho de sol,

deixando vazias as ruas e as pessoas.

Ruas têm sempre esquinas

e pessoas sempre se impõem limites:

ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.

 

Aqui, junto às ondas, se decifra o idioma dos náufragos.

Porque apenas vozes afundadas no desconhecido

narram com claridade a vida.

 

Lá atrás fica o fim do horizonte,

existe um cardume perdido com roupas sobre a pele.

Lá está a resposta que o sangue vomita.

Há mais casas que céu, mais poeira que gotas

e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.

 

Nesse lugar, o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.

 

 

                                                  Sérgio Bernardo     

publicado por Sérgio Bernardo às 06:25

Quarta-feira, 08 de Junho de 2011

 

Cercado pelos quadros

o pintor aderna,

incapaz de modificar litorais,

entre fósseis de vernissage e uísque nacional.

Mais fácil vender a alma

que uma de suas telas figurativas:

o diabo bem poderia

investir em arte como negócio.

 

Pensa: estou devendo ao veterinário

que há uma semana levou minha gata

e amanhã

também ao fornecedor da bebida.

 

                          Sérgio Bernardo

publicado por Sérgio Bernardo às 23:09

 

O jornal nas mãos se inutiliza como instrumento

mais pelo que guarda

do que pelo obsoletismo da forma.

 

É o que não diz que o torna imprestável,

mero papel com letras.

 

Não o substituem páginas

carregadas de linguagens contemporâneas

atravessando conexões com o agora.  

 

Mesmo diário, ele se inviabiliza

pelo que dorme em arquivos

na cumplicidade das editorias.

 

                            Sérgio Bernardo

publicado por Sérgio Bernardo às 22:54

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